Como promover a aprendizagem baseada em problemas

“A aprendizagem baseada em problemas (ABP) é uma estratégia em que os estudantes trabalham com o objetivo de solucionar um problema. Trata-se, portanto, de uma estratégia de ensino centrada no estudante, que deixa o papel de receptor passivo e assume o de agente e principal responsável pelo seu aprendizado”
(p. 175).

Nessa abordagem o professor é visualizado como o facilitador da aprendizagem: organiza o trabalho dos alunos. Segundo o autor, o professor elabora um problema e o apresenta aos alunos, como o propósito de que sua resolução seja apontada por eles. A formulação de hipóteses se inicia, com o devidos registros para posterior discussão. Tal metodologia deve envolver todo o currículo do curso, numa proposta interdisciplinar.

A fundamentação teórica está apoiada em autores já apresentados: Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, entre outros, mas a maior contribuição vem, “no entanto, do construtivismo, que se fundamenta no princípio de que os aprendizes não copiam nem absorvem ideias do mundo externo, mas constroem seus conceitos por meio da observação e experimentação ativa e pessoal” (p. 177).

Vantagens dessa metodologia
A responsabilidade pela própria aprendizagem, bem como o desenvolvimento do trabalho em equipe demonstram pontos bastante positivos dessa abordagem metodológica. A interdisciplinaridade também se apresenta como ponto favorável, já que para resolver os problemas os alunos necessitarão de seus referenciais mais amplos, todo o seu repertório intelectual e de experiências como o referido tema. Entende-se que com essa dinâmica, do “pensar”, o aprendizado do aluno torne-se mais efetivo, com grande significado.

Limitações
O tempo de cada disciplina no Ensino Superior, o tipo de problema a ser apresentado aos alunos, a tarefa de acompanhar a resolução do problema pelo professor e a delicadeza do processo de avaliação constituem algumas limitações desse tipo de proposta, pois se não forem sistematicamente organizadas, poderão levar ao fracasso da aula.

São exemplos de atividades desenvolvidas a partir da aprendizagem baseada em problemas:
Estudos de caso, dramatizações e jogos.

Para saber mais:
Esse texto trata-se do resumo das ideias do capítulo 11 do livro
GIL, Antônio Carlos. Didática do Ensino Superior. São Paulo: Atlas, 2013.

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Como promover discussões em classe

A Psicologia Educacional aponta que discussões são bastante ricas como recurso estratégico para facilitar a aprendizagem em sala de aula; a Didática também a apresenta como tal, e ainda considera necessário relacioná-la a outras estratégias. Alguns benefícios dessa prática:
– Abordagem de um assunto em diferentes perspectivas; estímulo às diferentes opiniões sobre os temas discutidos; compreensão do estudante como coprodutor de conhecimento; desenvolvimento de habilidades de síntese e integração, etc.
Alerta: não pode ser entendida como “um método de ensinar tudo a todos”. Discussões mal encaminhadas são frustrantes para professores e alunos. Necessita estar atrelada aos objetivos considerados pelo professor em seu plano de aula, o que implica dizer que em alguns momentos não é recomendada (assuntos polêmicos). O domínio do assunto a ser debatido pela sala é fundamental para o sucesso da aula.

“Transformar a discussão no principal tipo de exercício para o ensino seria, então, ignorar deliberadamente a necessidade fundamental e primária da aprendizagem, isto é, ter certeza de que ela realmente aconteceu. Fazer com que ela se realize é ainda o seu problema básico” (p.155).

Um de seus princípios básicos é favorecer a reflexão do que foi aprendido, já que permite a interação de ideias entre professor e aluno. Desta forma, o professor propicia ao aluno a oportunidade de constituição de uma autonomia de pensamento, de fala, o que lhe permite uma “consciência” a respeito dos temas e, consequentemente, a aceitação de diferentes pontos de vista. A relação, o envolvimento entre os alunos está privilegiado nesse contexto.
Para dar início a uma discussão, o autor aponta alguns instrumentos: leitura de um texto, apresentação de um vídeo, uma demonstração (ou visita a um local específico) ou dramatização. Perguntas também são excelentes motivadoras, mas necessitam de grande habilidade do professor, pois se corre o risco de os alunos não terem as respostas adequadas (ou não se manifestarem). Alguns professores se utilizam da técnica de “formulação de problemas” (p.161) para iniciar uma discussão, registrando no quadro possíveis respostas que os alunos apresentarem.
Alguns cuidados que o professor deve ter apontados pelo autor:
Atenção ao espaço físico;
Tempo;
Considerar a participação do aluno como voluntária;
Respeito às diferentes opiniões;
Saber ouvir;
Ênfase nos considerações mais importantes;
Percepção sobre o desenvolvimento da discussão, entre outros.
É importante que a discussão seja encerrada e a sugestão é que haja uma “amarração das ideias” (p.168).
A discussão em pequenos grupos desenvolve alguns objetivos, são eles (p.169)
Exercitar múltiplas habilidades intelectuais; valorizar o trabalho em equipe; desenvolver a capacidade de discussão; favorecer o reconhecimento de múltiplas interpretações sobre um mesmo assunto; desenvolver a capacidade de observação do comportamento; aprimorar a capacidade de dar e receber feedback.

Para saber mais:
Esse texto trata-se do resumo das ideias do capítulo 10 do livro:
GIL, Antônio Carlos. Didática do Ensino Superior. São Paulo: Atlas, 2013.

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Relação professor-aluno e o processo de aprendizagem (no Ensino Superior)

“Sala de aula: local privilegiado para a satisfação de muitas necessidades, sobretudo das sociais e de estima”. (p.57)

A aprendizagem é o grande foco do processo pedagógico, atualmente, segundo as considerações de diferentes autores na área da Educação. Aponta-se que um dos fatores mais importantes para a sua constituição é a relação que se estabelece entre o professor e o aluno, mas antes de adentrarmos nessa temática propriamente dita, é necessário explanar sobre todo o contexto em que essa relação encontra-se inserida.

Os planejamentos de cursos, de séries, de disciplinas demonstram a ideologia da universidade com relação ao perfil de homem que querem formar, que valores serão priorizados, que concepção de ensino-aprendizagem irão defender (ler post anterior sobre planejamento e suas considerações).

Com a apropriação desses instrumentos balizadores, o professor antecipa uma série de questões a respeito da disciplina no curso: sua importância, a relação com as outras disciplinas, a teoria na prática, etc, que contribuirão para refinar a relação professor-aluno, tendo em vista a aproximação do significado de sua mensagem ao aluno. Essa condição citada pode nomear-se contrato didático, que significa o reconhecimento dos papéis (de professor e de aluno) no processo de aprendizagem, que envolvem valores como respeito, consideração e responsabilidade. GIL (2013) ponta também que o professor que extrapola os aspectos formais da aula consegue um resultado ainda mais positivo em sua prática: interesse dos alunos, participação, envolvimento, o que implica numa aprendizagem muito mais significativa.

“O que o professor ensina sem querer ensinar e o que os alunos aprendem sem querer aprender, por sua vez, pode representar o mais importante e mais permanente produto do processo ensino-aprendizagem”. (p. 58)

Enfoques teóricos que colaboram para a compreensão dessa relação

CARL ROGERS (1902-1987)

Pioneiro – Psicologia Humanista / Pai da Educação Não Diretiva

“… Não, a facilitação da aprendizagem significativa repousa em certas qualidades de atitude que existem no relacionamento pessoal entre o facilitador e o estudante” (ROGERS, 1986, p.127)

Para ele a aprendizagem se desenrola a partir de algumas qualidades, a saber:

Autenticidade – ser uma pessoa real (tirar a máscara de “professor”);

Apreço pelo estudante – aceitar o estudante como uma pessoa que tem valor por si mesma – promoção de um clima de confiança;

Compreensão empática – compreender internamente as reações do estudante, sensibilidade, saber colocar-se no lugar do outro – promoção de uma aprendizagem significativa.

CONSTRUTIVISMO

No Construtivismo a escola precisa “promover a harmonização das necessidades individuais com as exigências do meio social” (p. 62) A aprendizagem, por sua vez, é compreendida como o “processo de reestruturação de conhecimentos prévios, e com base neles, novos conhecimentos são ancorados” (p.63) – Ler post anterior Piaget, Vygotsky e Wallon – tripé teórico da Educação. O foco das propostas pedagógicas deve ser o desequilíbrio dos processos mentais a fim de propiciar novas habilidades cognitivas, ou deixa-las mais complexas. A interação entre professor e aluno considera o levantamento de conhecimentos prévios e a mediação do conhecimento. São condições essenciais nessa tendência educacional: diálogos, responsabilidades, estratégias, conteúdos e experiências.

Momentos significativos no relacionamento com os estudantes

Mantendo o primeiro contato com a classe

Segundo GIL, as primeiras informações podem ser decisivas para constituição da impressão do aluno com relação à disciplina e à visão sobre o professor. É importante que ele se organize para que sejam positivas: atividades, dinâmicas, propostas que causem grande impacto no primeiro contato pode ser decisivo para a constituição da relação professor-aluno. GIL considera, ainda, que a sensibilidade deve ser a tônica do trabalho do professor. E que conhecer os alunos pelo nome, por exemplo, demonstra grande apreço por eles, é um diferencial.

Dando e recebendo feedback

É importante que o professor esteja atento às manifestações dos alunos a respeito da aula, do conhecimento apresentado, se todos estão compreendendo sua explanação, se tem dúvidas, de o assunto é considerado pertinente, etc. Esse feedback sobre a aula o professor consegue não apenas com as avaliações formais, mas também com questionamentos durante as aulas, atividades diferenciadas, pesquisas. De outra forma, os alunos precisam ter ciência a respeito de seu desenvolvimento durante as aulas. As produções dos alunos com as devidas anotações do professor, respostas a perguntas realizadas durante as aulas são exemplos de recurso valioso sobre a aprendizagem.

Abrindo-se aos estudantes

A relação fora da sala de aula, em momentos de intervalo, pré e pós aula constituem, segundo GIL, ricas oportunidades de troca entre professor e aluno. Extrapolar o horário de aula pode ser bastante favorável para o estabelecimento de maior vínculo nessa relação.

Resumo do capítulo 4 do livro:

GIL, Antonio Carlos. Didática do Ensino Superior. São Paulo: Atlas, 2013.

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Considerações sobre avaliação escolar

Avaliação

A avaliação do desenvolvimento do aluno já foi entendida, há algum tempo, como forma de se manter o controle da disciplina em sala de aula. A Pedagogia mais tradicional restringe a atuação do aluno nessa ótica e monopoliza o “poder” ao professor. Hoje ela é concebida como um processo contínuo, que requer do professor uma postura de observação e escuta bastante apuradas, já que o aluno também participa desse encadeamento de atuações.
Abaixo serão caracterizadas cada “proposta” de avaliação, suas principais facetas e intervenções.

Avaliação tradicional

 Os registros, normalmente, acontecem individualmente, já que trabalhos em grupo representam a perda de controle da situação pelo professor: barulho, conversa e movimento dos alunos na sala de aula;
 É classificatória: rotula os alunos a partir do desempenho de cada um deles na avaliação, com notas ou conceitos distanciados da aprendizagem propriamente dita, categorizando-os, por exemplo: alunos que tiravam nota A, pertenciam ao primeiro ano A;
 A participação do aluno é pequena, pois se limita ao preenchimento das respostas nas avaliações formais – provas orais ou escritas;
  Determina o destino do aluno – segundo Patto (1999) “profecia auto realizável”, sobre o fracasso escolar;
 Supervalorização dos acertos: pautada na dobradinha estímulo-resposta, a Pedagogia mais tradicional procura supervalorizar os acertos dos alunos, para seja entendido por eles que esse “comportamento”, de acertar, deva ser “mantido”. Já os erros são encarados como elementos inaceitáveis no processo de aprendizagem, por representarem o fracasso escolar;
 A informação está pronta. Não há discussão, nem tampouco pesquisa, pois se trata de verdade incontestável. Existe apenas a contemplação dessa informação;
 A avaliação é usada como controle de disciplina e comportamento: para manter a ordem na turma, o professor intimida o aluno com ameaças de retenção (especialmente quando ela – a retenção – acontecia anualmente);
 Pode-se afirmar que esse perfil de avaliação penaliza o aluno que mais necessita de auxilio individual.

Avaliação inovadora

 É processual e contínua – instrumento de ensino e aprendizagem: feedback para o professor e para o aluno quanto à aprendizagem; precisa ser realizada a todo momento, com registros e observações, a fim de se ter um panorama do desenvolvimento do aluno;
 O aluno é co-autor do processo de aprendizagem, já que participa ativamente desse processo, podendo, inclusive, autoavaliar-se;
 É diagnóstica na medida em que o professor precisa apropriar-se de diferentes instrumentos para acompanhar/verificar o desenvolvimento do aluno. Permite intervenção do professor adequada a cada aluno, de cada necessidade específica que possam ter;
 O erro é visto como parte do processo de construção de conhecimento do aluno,uma hipótese equivocada que ele criou sobre uma situação problema. A intervenção do professor que será o diferencial para proporcionar a aprendizagem;
 O conhecimento é dinâmico, plástico, flexível, constituído a partir da teoria, com a complementação da prática. A ação é a palavra-chave que permeia o saber;
 O comportamento do aluno é observado, mas não conceituado formalmente;
 Permite o replanejar das atividades de modo a abarcar o coletivo, considerando as individualidades.

Para saber mais:

HAIDT, R. C.C. Curso de didática geral. São Paulo: Ática, 2006.
PATTO, M. H. S. A produção do fracasso escolar – histórias de submissão e rebeldia.
São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

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Escola é…

Escola é…

o lugar onde se faz amigos,
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos…
escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda,
o coordenador é gente, o professor é gente,
o aluno é gente, que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente, cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um
se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”.
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir que
não tem amizade a ninguém, nada de ser como o
tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se “amarrar nela”!
Ora, é lógico…
numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se, ser feliz!

Paulo Freire

 O Espaço Escola

A Escola pode ser considerada com diferentes óticas, dependendo do contexto histórico em que está inserida. Num perfil atual, levando-se em conta o desenvolvimento tecnológico, a liberdade de expressão que a sociedade de um modo geral legitima, bem como alunos e professores como personagens ativos, co-participantes e integradores do ato de aprender, é necessário um vislumbrar diferenciado sobre o espaço Escola. Deve ser considerado como promotora do “ensino das letras”, ou seja, ensina a ler e escrever? Ou ainda deve ser entendida como local para “dar Educação” para os alunos? E assim, que “Educação” é esta? A Escola, pode, ainda servir para “disciplinar” o aluno? Para preparar para o trabalho?

Questões como estas levantam aspectos relevantes para caracterizar que Escola queremos, ou melhor, que Escola devemos ter na contemporaneidade – uma instituição capaz de promover ações que abarquem as características abaixo –

Desenvolvimento cognitivo: trata-se do processo de conhecer algo, o que implica em aperfeiçoar conhecimentos que se tenha ou agregar novidades.

Desenvolvimento afetivo-emocional: conhecimento de si mesmo, perceber-se dentro de limites e possibilidades – potenciais a serem desenvolvidos.

Desenvolvimento motor: percepção das capacidades físicas, bem como seu desenvolvimento.

Convívio social: sociabilidade com os colegas, integração, perceber-se no tempo e espaço, na sociedade onde vive, contextualização.

Plano profissional: fazer com que o aluno perceba o trabalho como forma de ação do homem na construção do mundo, cultura.

O que os especialistas sugerem sobre a Escola

      Georges Snyders = professor da Universidade de Paris, escreve sobre a alegria na escola, do ponto de vista do educando.

Para ele, a escola sempre irá propiciar divergências entre professores e alunos, por conta dos diferentes interesses, deferentes maneiras de ser, gostos, desacordo de idades, etc. E ainda corre-se o risco do professor estar “fechado no passado” e os alunos, “abertos” ao futuro.

      Neidson Rodrigues = foi Secretário da Educação de Minas Gerais. Para ele, a escola tem como função principal o preparo para a cidadania, para a “modernidade”. Pedagogia proposta por ele: “Escola Necessária” = democrática, que prepara para a democracia, para as deliberações coletivas.

      José Carlos Libâneo = professor da Universidade Federal de Goiás, escreve sobre Didática = formação de professores = magistério. A atividade educativa, para ela, acontece nas mais diferentes esferas da vida social – família, igreja, instituições educacionais, empresas, meios de comunicação de massa, etc. Desta forma, o processo educativo na escola “é socialmente condicionado” pelas relações sociais desenvolvidas em seu interior.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MASETTO, Marcos. DIDÁTICA: A Aula como Centro, 3ºEd. São Paulo: FTD, 1996

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Octavio Ianni – A questão social

             A questão social é um tema que segundo o autor, deve ser discutido, colocado em foco permanentemente, haja vista a relevência da análise e compreensão das relações entre sociedade civil e Estado. Faz uma análise histórica do processo de construção da questão social brasileira e sugere para uma compreensão larga, ampliada do tema, que os aspectos econômicos, políticos e sociais devam ser examinados criteriosamente: um complexo de equações a serem solucionadas.

            O autor aponta, junto de Hélio Jaguaribe, a existência de dois Brasis num mesmo contexto: um arcaico, lento, atrasado, de subsistência, rural, etc, e um outro, moderno, arrojado, tecnológico, industrializado. Apesar de causar estranheza, estes dois Brasis necessitam um do outro, para a continuidade das relações intrínsecas. Este movimento reforça as reflexões sobre a questão social e as manifestações da sociedade para minimizar as distâncias entre as “camadas” sociais.

            Desde a escravidão, os movimentos sociais eclodem e colocam-se como dispositivo rotineiro na luta da igualdade de direitos. A partir da década de 20, a questão social deixa de ser encarada como um “problema de polícia” (repressão), passa a ser considerado um “problema político”. Com o investimento do poder público na busca de desenvolvimento – transporte, energia, comunicação, infraestrutura urbana, etc), a economia tem nova aparência, expandindo-se. Industrialização, urbanização, exportações. Na medida do desenvolvimento, aparecem, concomitantemente as desigualdades sociais, referente à distribuição desigual de renda, afinal, o capital é o dono da situação. Nesta ótica, a própria sociedade é vislumbrada como “fábrica de desigualdades”, grupos projetam-se, enquanto outros vivem na precariedade.

            Movimentos sociais são fomentados com o intuito de equilibrar as relações entre Estado-Sociedade-Capital. Sindicatos, partidos, manifestos são organizados para resignificar aspectos básicos, mas fundamentais para a vida e a convivência na sociedade – alimentação, saúde, habitação, educação, etc.

Existe uma tendência, segundo o autor, a se “naturalizar” a questão social, vista à luz de dois aspectos: a) entendida como “problema de Assistência Social”; b) entendida como problema de violência – repressão, segurança, opressão.

            Os setores que organizam a sociedade têm dificuldade em lidar, assumir posicionamento em face desta dicotomia: na ausência de posicionamento adequado, demonstram verdadeira “intolerância” para tais movimentos da sociedade, agindo como repressores de tais atitudes.

Para saber mais:

IANNI, Octavio. Artigo A questão social. Revista São Paulo em Perspectiva. Volume 5 – número 1. São Paulo, 1991.

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A questão social – ideias de Robert Castel

            O desemprego que perpassa a realidade atual, numa dimensão macro, em larga escala, demonstra a necessidade do emprego formal, assalariado, para a sociedade. Em tempos anteriores, esta condição de assalariado não era bem vista, já que significava que o trabalhador nada mais tinha a realizar, a não ser se submeter ao enquadramento da troca descompensada de sua força de trabalho. Esta compreensão histórica da pertinência do trabalho assalariado para a sociedade é fundamental na compreensão do paradigma atual.

            O trabalho representa o movimento de pertencimento, de integração do trabalhador à sociedade. Os longos períodos de desemprego, a submissão a políticas de renda mínima para recebimento de proteções, trabalhos informais que não são momentâneos, pelo contrário, muitas vezes o trabalhador se mantém, a vida inteira, nestas condições, são demonstrações claras da questão social hoje. Isto demonstra a chamada exclusão social, “invalidação” social. O autor aponta estas configurações como “zonas”, espaços hipotéticos, para conseguir obter uma visão panorâmica da questão social.

            A palavra “metamorfose” foi escolhida pelo autor como uma “metáfora”, na tentativa de ilustrar o desenrolar da questão social: numa metamorfose as certezas não são permanentes, estáveis. Seqüência que ao mesmo tempo demonstra mudança, transformação, também pode apresentar fragilidades, dúvidas, trilhar de novos caminhos a respeito destas manifestações.

            Duas dimensões históricas são consideradas no que diz respeito à integração do trabalhador na sociedade: a) dimensão “reformista” – no sentido de “reforma”, que valida um posicionamento de mudança de perfil, de diretrizes sobre a política de salários, nova forma, nova visão, renovação do conceito de trabalho; b) dimensão “revolucionária” – mudança da “estrutura social” a fim de equalizar oportunidades oferecidas a todos, inovação.

            O desafio contemporâneo pauta-se na problemática de aceitação de uma sociedade que se submete às exigências do mercado, das tendências econômicas, do capital, ou a constituição de um Estado Social que atenda as necessidades do tempo presente.

Fichamento da introdução do livro:

CASTEL. Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do trabalho. Tradução de Iraci D. Poleti. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

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